Não se fazem mais mães como antigamente…



(Por Meire Gomes, pediatra)

As crianças da atual geração estão sofrendo o que tenho chamado de síndrome do confinamento. São crianças criadas com pouco espaço, em apartamentos pequenos ou quase trancadas dentro de casa para fugirem dos perigos das ruas. As escolas estão relativamente menores, com salas climatizadas para muitos alunos e áreas externas cimentadas. Elas permanecem boa parte do dia com babás ou na escola. Em casa elas se deparam com programas televisivos inadequados que incitam à violência e sexualidade precoce. À noite encontram-se com pais fatigados e confusos quanto a melhor forma de criar seus filhos. São crianças irritadas, com distúrbio de sono e classificadas pelos pais como “desobedientes”. Estão sofrendo de gastrite, enxaqueca, estão com sobrepeso e desenvolvem mais alergia que nas décadas passadas. Como vão ser essas crianças no futuro não sabemos, mas na minha opinião essa geração é um marco. Dessa para frente, pouca coisa vai mudar e a partir dela teremos uma razoável experiência do certo e errado com relação aos cuidados prestados às crianças – talvez nos próximos 15 ou 30 anos cheguemos a um consenso e elaboremos uma espécie de Manual de Instruções para criar bebês.
Até duas gerações atrás as crianças no geral eram criadas com a presença materna dominante no seu dia-a-dia e cada geração influenciava a outra com visíveis mudanças de comportamento, dada a libertação de preconceitos e tabus (já menos arraigados na atualidade), o que levava ao conhecido “choque de gerações”. A minha geração – estou na faixa dos 30 – faz parte de um meio a meio; algumas crianças tiveram maior influência familiar em sua formação e outras já começaram a experimentar a dupla jornada das mães. Foi uma geração de transição.

Hoje a grande maioria das mães é também provedora financeira do lar; se for mãe adolescente, precisa estudar para enfrentar futuramente o duro mercado de trabalho. Muitas são mães solteiras e tantas outras são divorciadas. São mães com carga psicológica e laborativa muito maiores do que as das “mães de antigamente”. Muitas são podadas do prazer da amamentação por voltarem cedo ao trabalho; outras se martirizam pelo sentimento de culpa de deixar um bebê indefeso com alguém estranho à família. Muitas outras “engolem sapos” por serem obrigadas a depender da ajuda de familiares que terminam algumas vezes por interferir na criação que elas instintivamente julgam como ideal para seu filho. Não adianta lamentar, dessa geração para frente será assim e aos poucos iremos aprendendo a lidar com as frustrações e as crianças irão se adaptando ao novo modelo. As mães, espero, estarão mais tranqüilas, os pais mais presentes, as avós mais compreensivas. E as crianças mais independentes, menos carentes emocionalmente e preparadas para serem mães e pais de filhos que terão uma vida parecida com a deles. O que prevejo de sutil mudança para a próxima geração será uma leva de filhos únicos. A maioria dos segundos filhos do meu consultório foram agradáveis acidentes de percurso e raras são as mães que se aventuram a uma terceira gestação.
As mães que trabalham fora são verdadeiras heroínas … Crianças pequenas dormem mal à noite, requerem muita atenção, apresentam mais viroses. Mesmo cansadas, as mães estão prontas para atendê-las. Sou testemunha de seu cansaço, das suas falhas de memória, das suas insônias, da sua face de medo, de sua insegurança e muitas vezes de sua revolta … As crianças exigem mais do que as mães da atualidade podem oferecer; isso faz com que as mães vivam dentro de uma panela de pressão e passem a tentar medicalizar os problemas.

Procuram remédios para situações que as “mães de antigamente” consideravam banais, tais como golfadas, cólicas, nascimento de dentes, falta de apetite, constipação e resfriados, pois já estão com um nível de stress tão alto que mesmo situações normais ou pouco importantes passam a ser fonte de extrema angústia. Assim, para completar, findam por se depararem com a incompreensão de muitos médicos e com a nossa falta de experiência para cuidar mais das mães que dos filhos, pois muitas vezes elas precisam de mais zelo e atenção que propriamente merece a condição de saúde dos filhos que trazem em seus colos. Como se não bastasse, ainda são apontadas por alguns familiares como as culpadas pelo processo esperado de doenças virais recorrentes que muitas crianças institucionalizadas (de creche) passam nos primeiros anos de vida. Para compensar esse sentimento de culpa tendem a ser permissivas, criando crianças sem imposição de limites, fechando assim o ciclo vicioso do já citado confinamento.”Trabalhar fora” é uma condição imposta não só pela vida moderna ou pela necessidade financeira mas também pela luta da mulher pelo seu espaço na sociedade. É direito da mulher ter sua profissão e sua fonte de renda, e é seu direito também ser ajudada por todos na difícil e doce tarefa que é a maternidade. Ter crianças amadas e bem educadas é interesse de toda a sociedade, e uma preocupação sincera dos profissionais que lidam com a saúde infantil.
Esse meu pequeno histórico da vida da criança e da mãe moderna é na verdade um pedido: Mulheres, libertem-se dessa culpa. Tentem relaxar e aproveitar melhor o pouco tempo que vocês podem dar aos seus filhos. Mostrem-lhes todo o amor incondicional que vocês guardam, e exercitem o “não” com urgência e sem peso na consciência.

Conversem com seus filhos, mesmo que sejam ainda bebês. Não se deixem pressionar por quem diz que isso ou aquilo vai deixar a criança “com manha”. Ninem suas crianças, ponham-nas no colo, beijem muito – carinho nunca é demais nem nunca fez mal a ninguém. O que faz mal é a permissividade e o mau aproveitamento do tempo compartilhado em família; a qualidade do tempo é certamente mais importante que a quantidade de tempo em si, e isso já é um chavão na psicologia infantil. Deixar a criança fazer tudo, ser o centro de todas as atenções ou permitir que ela compartilhe a cama com o casal não é uma forma de dar carinho nem de demonstrar amor. É uma forma de produzir adultos sem capacidade para lidar com as frustrações que são regras na vida de qualquer ser humano. Digam não sem culpas, mas sempre procurando dar alternativas às suas crianças. Uma criança compreende muito mais do que ela consegue traduzir com palavras; dizer um não sem dar outras alternativas – como afastar bruscamente a criança da tomada elétrica, sem dar-lhe uma outra opção lúdica – faz com que a criança reacenda a luta instintiva e tente se sobrepor à autoridade dos pais. A criança precisa de carinho, compreensão e de educação, de noções de cidadania e de crescer sabendo que apesar do mundo não se curvar aos seus pés ela terá outras alternativas a buscar. Formemos adultos mentalmente saudáveis, cientes das dificuldades do mundo real e dos obstáculos que certamente virão.

2 responses to “Não se fazem mais mães como antigamente…

  1. Oi Lu! Quanta saudade…
    A Dani tá linda!!!! Essa foto de vcs duas tá muito bonita!
    Que texto otimo esse!!! Parece até que o escritor se dirige para cada uma de nós, singularmente, não é?
    Abraços e saudades

  2. Amigaaaaaaaaaaaaaaa, estou passando só para matar as saudades. Essa foto sua com a Dani ficou lindaaaaaaa!!! Espero que vc volte logo a postar com frequência no blog. Beijos!!!

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