Mais sobre a felicidade…

Mais do que um estado de espírito ou um momento de intensa alegria, a felicidade pode ser real. A pergunta que não quer calar é… Felicidade se ensina?
É realmente possível ensiná-la aos pequenos? Como? Bem, para deixar o senso comum de lado e fazer desta leitura um despertar, é preciso mergulhar profundamente sobre o que cada um de nós
entende por felicidade. Afinal, ensinar valores e significados que traduzem tal sentimento aos filhos é um desafio para a vida inteira.
Danielle Gaspar

A década de 90 foi decisiva sobre a maneira de compreender o cérebro infantil. Se antes a ciência acreditava que o seu desenvolvimento era linear ao crescimento, hoje as descobertas revelam que é imprescindível dar mais importância à primeira infância (0 a 3 anos). Quando o bebê recebe um estímulo tão simples quanto um carinho, milhares de neurônios se conectam em segundos. Como resposta, gestos, sorrisos e olhares se revelam. A questão é que esses caminhos, conhecidos como sinapses, podem durar para sempre ou desaparecer. Daí a importância de saber para onde direcioná los e quais devem ser reforçados neste período. Essa pode ser uma das respostas que nos ajudam a entender como é tão difícil mudar a reação aos acontecimentos na vida adulta. Mas
nada é impossível, já que sempre há
possibilidades de trilhar novos caminhos.“Muitos pais centram-se no ensinamento ético e moral e, sem querer,
deixam de lado o desenvolvimento da competência emocional”, revela apsicóloga e consultora Lilian Graziano, doutora em Psicologia Positiva pela Universidade de São Paulo. A prática de ações e exercícios que valorizem sentimentos (como gratidão e perdão), podem levar ao cultivo do otimismo e, conseqüentemente, à experiência de altas sensações de felicidade. “A ciência não a entende como a completa ausência de problemas e imprevistos no dia-a-dia. Trata-se de um bem-estar resultante do baixo nível de humor negativo e alto nível de humor positivo”, completa.

AFINAL, O QUE É FELICIDADE?
Após a maternidade, os acontecimentos deixam de ficar marcados pela passagem dos anos e tudo, absolutamente tudo, gira em torno do antes e do depois de ser mãe. “Você acha que sabe o que é amor e felicidade, mas depois da chegada das meninas, o que eu suspeitava mudou completamente. Nunca vivenciei as coisas com tanta intensidade”, revela a arquiteta Cristina Fonseca, mãe de Bruna, 2 anos e Julia, 1 ano e 7 meses. De fato, é um turbilhão de emoções e a busca para encontrar a melhor maneira de educar as crianças parece uma tarefa impossível. “A gente quer dar o mundo, não há limites para vê-las feliz. Percebo que o desafio é saber dosar”, ressalta Cristina. Mas o que é esse sentimento que desejamos tanto, ao ponto de encontrarmos disposição para dedicar uma vida inteira em ver os pequenos sorridentes? É impossível negar que a sua busca faça parte da existência humana. Aristóteles, o filósofo grego, já acreditava na felicidade como o objetivo de todo homem. “Não é exagero imaginar que essa procura foi a grande propulsora da espécie humana. Da invenção da roda à clonagem, apenas uma coisa se mantém atual: o desejo por uma vida melhor”, explica Lilian. Para a advogada Melissa Bertolini, mãe de Taher, 7, e Tarso, 3, a felicidade está nos detalhes. “Descobri que era preciso buscar o que me deixava alegre para ensinar. O reencontro com a arte me tornou uma mulher mais forte e uma mãe mais plena”, revela. Segundo Sonja Lyubomirsky, professora de psicologia da Universidade da Califórnia e autora do livro A Ciência da Felicidade (Editora Campus), um dos grandes obstáculos para alcançar essa plenitude é que a maior parte de nossas crenças sobre o que de fato nos faz feliz, estão erradas. Os mitos: a felicidade é algo que pode ser encontrado em algum lugar e atribuir sua ausência a questões circunstanciais, como “serei feliz quando…” ou “só vou ser feliz se…” A felicidade não é algo concreto. “Ela é fruto de um ponto de vista, do modo de perceber e se relacionar com a vida. Na medida em que você direciona esse olhar, o mundo se transforma”, explica Lilian. Não é possível ser feliz amanhã e para o resto da vida se você se negar a ver o presente.

A EVOLUÇÃO DA ALEGRIA
Apesar da preocupação com essa emoção ser antiga, foi apenas nas últimas décadas que essa inquietação ganhou mais espaço, principalmente no mundo científico. Segundo o último relatório da OMS (Organização Mundial de Saúde), no ano de 2020, a depressão será a segunda causa de mortalidade no mundo. Parece irreal que, de todas as doenças, a falta de otimismo e felicidade afetará mais de 30% dos adultos. Mas afinal de contas, o que exatamente a determina? Quais são os reais motivos e causas que nos faz senti-la com intensidade? É possível educar os filhos para que não se tornem pessoas infelizes? Pare um instante e tente encontrar suas próprias respostas. Elas certamente vão revelar não só o que você entende por felicidade, mas também como repassa esse sentimento ao seu nenê, todos os dias.

DE PAIS PARA FILHO
A rotina da jornalista Anna Paola é superpuxada. Além de apresentar 2 telejornais, Adriano, 11 meses, e Hugo, 2 anos, não dão sossego. Otimista por natureza, Anna revela muito do que aprendeu com seu pai. “Vivo o momento, mas não deixo de fazer planos. Não é fácil conciliar, parece que tenho que matar um leão por dia. Mas a cada noite renovo os meus votos de que tudo isso vale muito a pena”, enfatiza. Estudos mostram que o fator genético, ou seja, a hereditariedade, influencia nos níveis de humor. É como se fosse um ponto de partida com maior ou menor potencial para a felicidade. Todavia ele está longe de ser decisivo. Segundo um relatório publicado na revista New Scientist, cientistas finlandeses revelaram que o chocolate, quando consumido diariamente por grávidas, pode reduzir o estresse e, após o parto, deixar os bebês mais ativos e alegres. É inegável a sensação de prazer após provar um pedacinho do doce, mas daí para afirmar que a felicidade depende exclusivamente do chocolate também é exagero. “Trata-se de uma alta dose de energia que tem efeitos sobre a serotonina e a dopamina, substâncias presentes na regulação do humor”, comenta Roseli Sarni, Presidente do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.

FAÇA VOCÊ MESMA
Além de chocolates e genes, sem dúvida, a atuação dos pais é o fator determinante para ajudar o pequeno a desenvolver as tais competências emocionais para que seja capaz de lidar com seus próprios sentimentos de maneira saudável (e a felicidade, sim, senhora!). Para a gerente de produto Ceres Maldonado, mãe de Matias, 2 anos, e Romeu, 9 meses, uma postura otimista com relação à vida é essencial. “Procuro não reclamar ou praguejar na frente deles. Ao mesmo tempo deixo claro que a rotina não é feita apenas de coisas prazerosas. Afinal, não dá para brincar 24 horas por dia. É preciso comer, tomar banho, entre outras tarefas. Acho que o segredo é ver sempre o lado bom de tudo”, comenta. Muitas vezes, pequenas atitudes diárias podem reforçar boas sensações. “Na hora de dormir, por exemplo, relembre com o pequeno os momentos alegres. Cultive sempre a gratidão”, sugere Lilian. Ensinar a perdoar, a ser generoso, comprometer- se com os objetivos e reconhecer a dedicação são outras maneiras. Sim, ser feliz dá trabalho, uma vez que mostrar aos filhos os caminhos não é uma tarefa fácil. Mas talvez seja o único esforço que tenha como garantia certa a felicidade. Esse desejo tão universal que nos aproxima e nos acompanha por toda a vida.

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