Curitiba de musas e símbolos

No início do século 20, Curitiba vivia seu momento de capital literária. Eram os tempos dos poetas simbolistas. Guilherme Voitch

Ao comentar o frisson que Emiliano Perneta causava na Curitiba do início do século 20, o crítico literário Andrade Muricy afirmou que o poeta parecia sempre andar com uma banda de música à frente, tamanha a agitação do séquito de seguidores que ele arrastava pelas ruas da cidade. O deslumbramento atingiu seu ponto máximo em agosto de 1911, quando Perneta, depois de chegar em uma carruagem, foi coroado – literalmente –“príncipe dos poetas paranaenses” diante de uma multidão que se espremia no Parque Barigüi.

A idolatria se explica. Perneta foi o mais destacado em uma geração de escritores curitibanos que contou com Dario Vellozo, Silveira Neto, Júlio Perneta, Leôncio Correia, Romário Martins, entre outros. O grupo de poetas fez Curitiba ser uma espécie de capital do movimento simbolista no Brasil e revolucionou a vida cultural curitibana. “Eles foram a representação artística de uma cidade que se transformava”, afirma o historiador Marcelo Sutil.

A transformação era evidente. Em dez anos, de 1890 a 1900, a população de Curitiba tinha duplicado. A cidade via nascer uma nova elite econômica, respaldada pelo dinheiro do mate. Com essa elite, surgia uma maior preocupação estética. A cidade avançava rumo a dois extremos: o Batel e o Alto da Glória. As casas e casarões construídos já não eram as meias-águas, umas grudadas nas outras. Pela primeira vez, as residências eram construídas mais para dentro dos terrenos, separadas de seus vizinhos. “As casas passaram e ter jardins e serem vistas em três eixos, o que garantia uma série de melhorias sanitárias e de iluminação”, conta o arquiteto e professor da Universidade Positivo, Irã Dudeque.

A transformação atingia também os espaços públicos. Parques e praças eram construídos. Surgem nesse período o Passeio Público, a Praça Carlos Gomes e a Pracinha do Batel, cujo desenho fazia as referências aos temas gregos cantados pelos simbolistas.

A Rua XV de Novembro, consolidada como centro da cidade, recebia cafés, livrarias, cinemas e teatros e via nascer, onde antes era um depósito de lixo, a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A XV era o trajeto obrigatório de quem queria ver e ser visto e os simbolistas, no melhor estilo dândi, eram especialistas em chamar a atenção dos passantes pelo refinamento dos trajes.

Era a Belle Époque curitibana.

Na biblioteca

O grupo que mandou na cultura curitibana nas primeiras décadas do século 20 está intimamente relacionado a dois dos principais símbolos da cidade: o Gymnásio Paranaense, atual Colégio Estadual, e o Clube Curitibano. “Foi na biblioteca do Curitibano, que funcionava no centro da cidade, que esse grupo de amigos resolveu criar sua primeira revista literária, a Cenáculo”, explica a pesquisadora e professora aposentada da UFPR, Cassiana Lacerda.

A Cenáculo foi a primeira de muitas revistas em que os poetas publicavam suas obras. Por muito tempo, a própria revista do Clube Curitibano foi conduzida por Vellozo e Perneta. Era no Salão do Clube que Daryo Vellozo, principal orador do grupo, fazia suas apresentações e recebia autores de fora.

Mais tarde, Vellozo decidiu criar uma sede para as reuniões dos poetas e seus pupilos. Em sua própria chácara, na Vila Isabel, foi levantado o Templo das Musas, sede do Instituto Neo-Pitagórico.

O instituto, mantido pelo genro de Vellozo é um dos poucos locais a conservar obras e documentos dos simbolistas e do tempo da Curitiba das musas.

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