E finalmente meu relato de parto…

Era dia 26 de julho de 2005, uma segunda-feira fria e ensolarada. Lembro bem de estar repousando do almoço com minha mãe ao sol quando comentei que achava que meu problema nos ovários haviam voltado, afinal, minha última menstruação havia sido em 19 de junho e até o momento ela não tinha dado o ar da graça. Eu estava sem tomar o anticoncepcional porque havia esquecido o dia de iniciar nova cartela, estávamos em Barra do Ararapira e a última coisa que pensei foi levar a cartela nova. Nesse dia minha mãe me perguntou se eu estava normal e prontamente respondi que sim, tirando a dor insuportável nos seios, as cólicas (que para mim eram um sinal de menstruação á vista) e o sono, estava tudo bem. Ela disse “Você está grávida, está com uma luz!” Tá bom! Imagine, eu grávida? Não! Ou sim? Liguei para o Daniel na hora e falei para levar um teste de farmácia para casa pois existia uma possibilidade remota de realmente estar grávida.

Passei o dia catatônica, viajando em meus pensamentos. Quando cheguei em casa, fui abrir a porta e ela estava fechada por dentro com a trava. Ué? Comecei a gritar para o Daniel, nunca ele fechava a  trava. Quem abriu a porta foi uma menina, e depois mais uma, e outra e outra… Cinco meninas no total! eu havia esquecido que o Daniel cedeu nossa casa de abrigo para elas durante o congresso que organizamos. Ok, não era um bom dia para isso. Cumprimentei e me tranquei no quarto até o Daniel voltar. Acredito que elas devam ter ficado horrorizadas com minha falta de educação (que depois foi esclarecida). Quando o Dani chegou eu tive um surto, literalmente um surto! Chorei, acho que até bati nele, não lembro mesmo. Mas lembro de ter dito que tinha medo que ele fosse igual ao pai dele e que não queria que meu filho sofresse tudo que ele sofreu (me arrependo amargamente dessa parte!). E, depois de tudo isso, aqueles olhos castanhos escuros me olharam bem fundo e ele disse “Agora nós somos três, e tudo bem!”. Sabe quando você é criança e dorme de tanto chorar, aquele sono gostoso, renovador? Eu dormi no colo dele assim!

No dia seguinte acordei junto com ele, 6h da manhã. O Dani saiu e eu fui para o banheiro fazer o teste. As duas tirinhas vermelhas só faltaram piscar! Eu estavagravidíssima! E todo o medo da noite anterior? Eu estava chorando e rindo sentada no vaso, afinal eu iria ser mãe… De verdade! Sai do banheiro ao prantos, não sei o que senti, estava feliz! Conversei com as meninas e descobri que uma delas tinha uma filha e que havia engravidado com 17 anos. Conversei muito com ela e fiquei mais tranquila.  7h liguei para o meu pai e contei, e logo o meu telefone não parou mais. Ele contou para minha mãe e meus irmãos (foi tão lindo ouvir a vós de todos chorando no telefone). Bem, mas faltava avisar o pai, afinal o Dani tinha saído antes de fazer o teste!

Meu pai veio aqui em casa 40 minutos depois que liguei para ele, e foi me deixar na PUC onde o Daniel estava. Parecia que de uma hora para outra eu era uma porcelana – Cuidado hein, coma direitinho e não corra! – e como são recomendações de Pai, a gente segue à risca! Bem , entrei no Bloco Verde e vi o Dani de longe. Saí correndo (sempre fui teimosa) e pulei no pescoço dele, que se virou e soltou um súbito – DEU NEGATIVO!? – Não amor, você vai ser papai!!! Ele pensou e saiu, falou para cada pessoa que passava por ele que ele iria ser pai! Nossa, ele falou feito uma matraca naquele dia! Estávamos felizes, toda a família comemorando. Foi legal!

Tive uma gestação muito tranquila, perfeita diga-se de passagem! Tirando o fato de não ter conhecido as pessoas certas e não ter buscado as informações corretas. Sempre tive medo de sentir dor, e com o parto não era diferente. Tinha medo de não querer nem olhar o bebê após o parto. Meu obstetra não me esclareceu nada em momento algum. Ele só concordava, realmente, pra que sentir dor? Enfim, ao final da gestação ele dizia que realmente eu não poderia ter um parto pois o bebê era muito grande e teria muitas consequencias negativas. Ok. Acreditei e usei isso como muleta!

Com seis meses soubémos que estávamos esperando uma menina, DANIELA. Sim, pelo pai! Na ultrasonografia apareceram as duas bolinhas brancas que ele tem na bochecha e tive certeza que esse nome era perfeito!

Bem, médico decidido, paciente apavorada, cesárea marcada! Eu teria a Daniela na sexta feira, dia 10 de março ás 9h da manhã. No dia 9 de março meu obstetra me ligou dizendo que o cento cirúrgico estava lotado e que teríamos que transferir a cesárea para o sábado, dia 11 de março. Ok, fazer o que né? A Daniela nasceria dia 11 de março às 9h da manhã. Dei entrada no hospital às 6h da manhã, minha sogra nos levou para a maternidade. Fiquei até às 10h esperando que fizessem minha internação, quando meu pai chegou e rodou a baiana, minha internação saiu! Eu já estava roxa de fome. Fui para a suíte e me preparei… Estava apavorada, não fazia idéia do que iria acontecer. Fiz meu último xixi às 11h e fui levada ao centro cirúrgico. Não senti dor com a aplicação da anestesia, mas fiquei assustada quando minha perna que estava dobrada caiu e não parecia mais parte de mim. E ai fiquei, esperando o abate!

Olhei nos olhos do Daniel e perguntei – Será que ela vai ter cabelinho para colar os lacinhos? –  Ele brincou – Vamos fazer um bolão! – Foi quando o obstetra ochamou para ver a Daniela ser tirada de dentro de mim. E eu ouvi aquele primeiro choro ( nunca vou esquecer!) e o Daniel disse – É o cabelão! – Quando a pediatra veio me apresentar minha filha (parecia uma estranha que precisava ser apresentada a mim!) chorei, ela tinha cabelos entrando nos olhos, cabelos pretos, não parecia uma recém nascida de tanto cabelo. Ela chorava forte, alto… E foi levada, para bem longe, foi aspirada, vacinada, violada… Nasceu com 42.5cm e 2.375Kg (tamanho e peso de bebê pré-maturo), nasceu de 39,5semanas, mas não estava pronta para nascer ainda. Como doeu o tempo em que fiquei ali, deitada, sendo costurada e ouvindo seu choro, longe… Ela voltou, embrulhada feto um charuto. O anestesiologista fez o favos de tirar o aparelho de pressão do meu braço e o respirador da minha boca para que eu pudesse beijá-la e tocá-la. Quando me apresentei formalmente – Oi, eu sou a mamãe! – ela parou de chorar e abriu os olhos, ela me reconheceu! Nos apaixonamos! Apesar de tudo ela sabia quem eu era. As avós e o dindo estavam no aquário vendo tudo, emocionados. Fiquei ali, uns cinco minutos com minha filha, e novamente ela foi levada!

nos reencontramos depois de não sei quanto tempo, na sala da observação. Ela foi colocada em meu braço, chorando muito. E eu ali, paralisada da cintura para baixo, chapada da anestesia e apavorada. Fui levada para o quarto e só lembro de ter toda a família ali, tendo certeza que eu estava bem. Não sei o que aconteceu a tarde, lembro da enfermeira entrar com a sopinha no prato e dizer que eu precisava comer. Comi e logo em seguida outra enfermeira veio me dizer que eu precisava tomar banho.  – Sério? Tudo bem! – Levantei com a ajuda do Daniel e juro, achei que ela me ajudaria, pois eu mal ficava em pé sozinha. Não, ela me deu a toalha e ficou me ollhando. eu olhava a água escorrendo pelo chão e não sabia de onde vinha aquele sangue todo, se era do corte, do útero, sentia o corte e os pontos. Juro, foi a pior sensação da minha vida. Isso me deixou nervosa e quando saí do banho comecei a passar mal. Vomitei toda a sopa e mais um pouco, quase desmaiei. O coitado do Daniel estava apavorado, pois eu estava branca. Logo em seguida a Daniela engasgou e quando olhei ela estava espumando pela boca. Chamei a enfermeira e ela foi levada para aspirar novamente. Fomos transferidos para outro quarto e lá ficamos. Fui fazer xixi novamente às 4h da madrugada, depois que a enfermeira disse que se eu não fizesse xixi iria colocar sonda em mim. Eu já estava sentindo tanta dor, fiquei com medo de doer mais e me tranquei no banheiro, liguei a torneira e o chuveiro e fiquei sentada no vaso tentando até que o xixi saiu e depois de 15 minutos saindo sem parar voltei para a cama. O Daniel estava exausto, pois a noite toda ele me levantava e me deitava, pegava a Dani para mim e colocava no berço novamente. No dia seguinte o circo abriu e veio TODA a família visitar. Não, eu não dormi a noite toda e passei o dia fazendo sala, com dor, com gases e inchada. A Daniela pegou o peito bem direitinho e mamou muito! Recebi a visita de dois casais de amigos que me deixou muito feliz, uma amiga queria trouxe o mapa astral da Dani e até hoje leio e fico feliz pela Estrela ter nos dado de presente o mapa! No dia seguinte eu estava me arrumando para ir embora, já tinham passado as 48h e eu queria minha casa. A pediatra foi ver a Dani e disse que ela estava muito amarela, mas que era estranho porque icterícia não aparece tão cedo assim. Tirou sangue do bracinho dela e mandou para análise. A tarde veio nossa primeira notícia ruim: não receberíamos alta, ela estava com icterícia ABO e se não baixasse iriam fazer transfusão na Daniela. Meu mundo caiu, eu ficaria sozinha com ela a noite, pois ela seria internada no meu lugar e eu receberia alta. Mas como ela ficaria no quarto eu poderia ficar 24h com ela. Ok! Força e vamos em frente. Na terça feira a pediatra (delicada como um cavalo) veio examiná-la bem cedinho e me deu a segunda notícia ruim – “Mãezinha (odeio esse termo), a bebê tem um sopro no coração e temos três possibilidades: ou ela terá que ser operada, ou trataremos com medicação, ou esperaremos que o buraquinho que provoca o sopro feche. Vou pedir um exame de emergência e vocês vão de ambulância fazer!” – e ela saiu da sala. Assim, como se tivesse me dito que estava chovendo lá fora. Eu desabei! O Daniel exatamente nessa hora me ligou para saber se eu queria alguma coisa da rua, e quando contei ele também desabou! Fiquei em pânico, como assim? Por que com minha filha? Ela é tão pequenina? Por que não comigo? Enfim, o exame ficou para o dia seguinte. Nessa noite, as avós ficaram até terminar o horário de visitas e ficaram com ela no colo, mesmo eu pedindo que ela voltasse para a fototerapia. Resultado: a bilirrubina dela subiu e a médica me deu uma chamada bem feia! Proibi que a pegassem do berço, só eu a pegava para amamentar e trocar, dar carinho e beijinhos. Mais ninguém!

No dia seguinte fomos de ambulância fazer o exame do coração, senti muita dor na ambulância mas fui muito bem tratada pelos paramédicos. Na clínica do exame vi um bebê roxinho, qe tinha cinco meses mas era quase do tamanho da Dani, já tinha sido operado e estava fazendo exames pré-operatórios. Mais medo, eu e o Daniel nem conversávamos de tão assustados que estávamos. Fizemos os exames e estava tudo bem. Ela tinha um CIA e um CIV, dois buraquinhos que deveriam ter fechado até o segundo dia de vida extra-uterina da Dani e não fecharam (pela prematuridade do parto dela) e teríamos que acompanhar trimestralmente a evolução desse probleminha.

Voltamos para o hospital mais tranquilos. Mas ainda abalados. Passamos a quarta e na quinta feira tivemos alta. Não acreditei quando cheguei em casa e fui apresentar a casa para a Dani. Logo meus pais chegaram com uma panelona de pressão de canja (que as outras visitas devoraram e eu fiquei sem nada).

Mas a sensação que tive foi de que agora, a nossa casa estava completa. Parecia que até então nossa casa era vazia, e só ficou completa com a Dani ali juntinho de nós. Essa tarde foi a primeira em que tive minha filha em meus braços sem medo, sem ter que devolvê-la ao berço, sem ter que tirar sangue. Éramos somente nós três no sofá nos namorando!

Arquivo pessoal de Luciana Ivanike

Na primeira foto, Daniela após o nascimento;

Na segunda foto, Daniela na fototerapia;

Na terceira foto, a boca mais perfeita do mundo (fototerapia);

Na quarta foto, Daniela e seu cabelo depois do mama;

Na quinta foto, Daniela em seu primeiro dia em casa!

4 responses to “E finalmente meu relato de parto…

  1. oi lú, adorei seu blog, adorei o relato do parto da Dani, eu tb fiz cesaria, mas ao contrario eu queria parto normal até o fim da vida, a Manoela nasceu de 41 semana, após longas horas de trabalho de parto, não doeu nada a cesaria e não senti dor alguma depois. Na hora do trabalho de parto meio q vc fica fora da casinha com as contrações e tal, penso hj com calma q talvez eu deveria ter insistido com o pessoal do hospital no parto normal… enfim, no proximo filho ou filha quero parto normal…
    bjim e parabéns pela Alice

    • Pois então Dani… Eu já comecei errado e agora estou pagando o preço!!!! enfim… Sempre há tempo para corrigir os erros!!!
      Beijos

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